Os pagãos podem comemorar o Natal? – Entrevista com Gabriel Halfléggr

Entrevista com Gabriel (“Halfléggr”) Gomes – praticante do paganismo germano-escandinavo desde 2013, membro fundador do Kindred Drykkjubirnir (Ursos Beberrões),  que nos conta um pouco como aliar o paganismo às celebrações do Natal.
Ele deixa claro que as respostas refletem sua opinião pessoal e não o paganismo como um todo.

Yggdrasil RJ – Como você começou a se considerar um pagão?

Gabriel – Acho que foi quando me dei conta do que isso significa, do que isso representa na minha vida. Eu já conhecia algumas histórias dos deuses, mas tudo não passava de histórias apenas. Quando isso se tornou realidade pra mim, quando passei a acreditar e buscar mais o contato com tudo que rodeia o paganismo, aí então me considerei um pagão.

Y – Existe alguma “iniciação” para você ser pagão nórdico, ásatrúar?

G- Se tem eu desconheço. Acho que a “iniciação” começa na sua mente, na sua consciência sobre tudo o que está à sua volta. Quando você compreende o que é viver o paganismo e toma isso como uma prática na sua vida. O que existe é o juramento feito aos deuses, quando você se bota diante deles e jura fidelidade. Esse é o um contrato que não dá pra cancelar com facilidade.


“Paganismo é mão na massa, é prática diária. Não existe paganismo de internet.”

Gabriel Halfléggr Gomes

Y – Quais as diferenças dos termos pagão, heathen, Asatruar?

G- Pagão é um termo geral para designar qualquer um que não fosse cristão, que tivesse outra crença. Como temos outra crença, somos pagãos. Heathen é pagão em inglês e muita gente usa por ser um termo mais conhecido mundialmente. Ásatrúar é como se define quem segue o Ásatrú. Dentro do paganismo germano-escandinavo temos basicamente o Ásatrú, o Odinismo, o Wotanismo e o Forn Sed. O Ásatrú e Odinismo são basicamente a mesma coisa e diferenças vão variar de país pra país, grupo pra grupo. Mesmo com o nome referente a Odin, Odinismo e Ásatrú são crenças que abordam todos os deuses do panteão nórdico. Wotanismo é mais um movimento político extremista, racista, que usa esse nome como identidade nacional. E Forn Sed é um movimento que enxerga o paganismo não como religião, mas como um costume, uma prática.

Y- Como é a sua relação com outras religiões?

G- Boa, pacifica. Não creio que outras religiões, politeístas ou monoteístas, sejam um problema. O problema são pessoas radicais, fanáticas que não sabem respeitar o próximo.

Y- Os antigos nórdicos tomavam as estações de ano como base nos rituais. Você também segue isso? Como é essa relação Hemisfério Norte X Hemisfério Sul?

G- Sim. Cada pessoa tem sua preferência por qual roda seguir baseado no que ela acha melhor. Sigo a roda do Sul, afinal vivemos no Sul. É um pouco sem sentido comemorar o verão em pleno inverno, ou o inverno em pleno verão. O paganismo atual precisa ser adaptável, precisamos trazer as práticas e costumes para nossa realidade atual como brasileiros do século XXI.


“O paganismo atual precisa ser adaptável, precisamos trazer as práticas e costumes para nossa realidade atual como brasileiros do século XXI.”

Y- Qual a relação da prática pagã para os Vikings ?

G- Tudo. A vida girava em torno dos costumes e esses eram a prática religiosa. Para eles não havia religião da forma que conhecemos hoje em dia, havia o costume passado de geração a geração e o que temos como crença, pra eles era algo já embutido em sua cultura. Não havia como separar as coisas.

Y- Cite algum ritual que os vikings faziam.

G- O Blót.

Exemplo de blót do kindred
Eplagarðr Kindred

Y- Há alguma fonte confiável para essas práticas ou rituais?

G- As fontes primárias são registros de “historiadores” da antiguidade como Saxo Grammaticus, Jordanes e Tácito. Além disso temos as Eddas e Sagas escandinavas onde podemos encontrar alguns registros desses ritos e práticas.

Y- Acabamos de passar pelo Natal. Como você e sua família celebram essa data?

G- Olha, sei que tem vários pagãos que aboliram essa data do calendário. Geralmente comemora-se a celebração ligada ao verão (Hemisfério Sul) ou inverno (Hemisfério Norte). Eu celebro as duas coisas. Faço meu rito de verão e fim do ano e depois participo da comemoração do Natal em família. Sei que o natal é uma apropriação, um roubo das práticas pagãs, mas também é uma tradição já nossa, da nossa cultura, das nossas famílias. Eu adoro coisas de Natal e o clima de Natal e não vou deixar de celebrar com meus pais por birra. Temos que ser maleáveis nisso. Família é ancestralidade e isso é um culto muito importante dentro do paganismo. (…) Nossas famílias celebram o Natal. Não vejo problema em participar disso. Estranho seria, para um pagão, celebrar o nascimento de Cristo em si.

Y- Como é o ritual pagão na época do Natal?

G- Fazemos o Midsummar, o Solstício de verão. Convidamos os deuses ligados ao verão, nossos ancestrais e os espíritos da terra. Oferecemos um banquete, comemos e bebemos com eles, nos divertimos, agradecemos as bênçãos recebidas e pedimos por novas bênçãos.

Y- Como é a relação do paganismo com o cristianismo? Ainda há alguma “rixa” entre elas?

G- Essa é uma questão delicada não por envolver religiões bem diferentes, mas por envolver pessoas que as seguem. Acredito que existe rixa sim para algumas pessoas. Rixa pelo passado opressivo do cristianismo e pelo presente preconceituoso, que não pertence a todos os cristãos mas existe em sua maioria.

Y- O que acha sobre os reconstrucionistas da antiga escandinávia?

G- Acho interessante resgatar essa parte histórica com a reconstrução. Quando há pesquisa e um trabalho bem feito, podemos ter uma ideia de como era o modo de vida escandinavo antigo. O paganismo que temos hoje também é uma reconstrução, nós pegamos o conhecimento antigo, aquilo que sabemos dele, e reconstruímos no presente.

Y- Como podemos aprender um pouco mais sobre o paganismo nórdico?

G- Lendo bastante. Eddas, Sagas, livros relacionados ao assunto, que por mais que alguns não sejam bons, vão te dar uma melhor visão para poder discernir as coisas dentro do paganismo. Conversar com quem tem vivência no paganismo também é uma boa forma de conhecimento, foi assim que consegui a maior parte do que sei hoje. E hoje em dia tem bons vídeos no Youtube sobre o assunto.

Edda de Snorri Sturluson – uma das fontes primárias para compreender o paganismo germano-escandinavo.

Y- Há alguma autoridade no assunto aqui no Brasil? E sobre instituições?

G- Não, não há e nem deveria haver. O paganismo é livre, é descentralizado e é exatamente isso que faz ele ser o que é. Criar instituições, criar cargos de autoridade é trabalho de quem quer chamar a atenção.

Y- Como podemos formar um kindred?

G- Com paciência. Haha. Um kindred é uma família, em teoria deveria ser algo ligado por juramentos para sempre, mas não é assim que acontece na grande maioria. Para formar um kindred é preciso ter vontade e compromisso, contato com os deuses para saber o que eles estão te dizendo a respeito disso. Um kindred não é um encontro de conhecidos pra beber e gritar “Odin”. Um kindred é uma aliança entre pessoas que serão seus irmãos e que você poderá contar enquanto essa ligação houver. Tudo isso ligado por juramentos entre vocês e os deuses. E quebrar um juramento nunca dá boa coisa. Portanto pensem bem antes de terem um kindred.

Y- Deixe uma mensagem para todos aqueles que se interessam pela cultura nórdica antiga, pelos Vikings e fazem parte do Yggdrasil – Estudos Nórdicos RJ

G- Bom, aos que tem interesse pela parte de reconstrução histórica e sociedade escandinava, pesquisem muito, trabalhem nisso, obtenham bastante conhecimento e aproveitem. Aos que buscam o lado mais “religioso” também terão que estudar bastante, pesquisar, tirar as dúvidas da forma que puderem. Entrem em contato com os deuses, aprendam a ouvir, ver e sentir o que eles querem passar a vocês. Paganismo é prática, é costume. No que puder estarei sempre disponível para ajudar. Odin blezadar.

Entrevista por Rafael Mello, realizada em 27/12/2018, através das redes sociais.

Para mais informações, sigam a página no Facebook
http://facebook.com/yggdrasilrj

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